Revista Bref!

Extremamente curioso.

A Revista francesa Bref, voltada ao cinema de curta-metragem, fez uma crítica sobre Zigurate na sua última edição. De uma maneira geral a crítica é bastante elogiosa e consegue desconstruir o filme com tanta facilidade que comecei a pensar se ele não é muito óbvio, no fim das contas.

O texto esmiúça muitas das motivações do filme, referências, atuações marcadas, opções de cor. Pela primeira vez alguém menciona King Kong. Metropolis alguns já tinham sacado.

Traduzi o texto que deve estar bastante inexato, especialmente no último parágrafo, um tanto empolado. Sim, o último parágrafo soa um pouco ofensivo, ao meu ver contrastando com o tom positivo do restante. Mas acho que é isso mesmo.

A Bref escolheu pouquíssimos filmes pra comentar, me sinto honrado de que um deles seja o meu:

“Em Clermont-Ferrand, Zigurate deixou alguns espectadores desconcertados, sua segurança e sua coerência o mantinham longe, apesar de seus excessos e de sua sobrecarga gráfica, de cair na vulgaridade. Faltou pouco porém, esse filme de ficção científica assume vinte minutos de um postulado visual extravagante, entre porno soft 80´s e um delírio mangaká fora de lugar.
Resultado: uma fábula marxista -não tão desconectada da realidade brasileira e de suas gritantes desigualdades- à base de esperma e merda…


De cara lembramos, superficialmente, de Metrópolis, sua sociedade dividida verticalmente. Existem essas torres imensas, essas coberturas ensolaradas sob o céu azul luminoso, onde pavoneiam casais bilionários, figurantes perfeitos de um universo enojante de cores saturadas e retocadas digitalmente. Lá embaixo, está a lama, literalmente: um magma salobre e marrom, a massa, os esquecidos.

No alto das torres, se bronzeiam, fodem, bebericam coquetéis. Gestos mecânicos, desencarnados, incessantemente repetidos, remetendo à superficialidade desses novos ricos que não têm nada além da própria ociosidade, a tranquila lascividade e o luxo como horizonte. Portanto, o inferno abaixo está lá, ameaça permanente cujos respingos poderiam rapidamente sujar esse Éden fabricado.

Esta oposição cromática posta, Zigurate se torna fascinante quando esses dois mundos se encontram e que um monstro de merda deslumbrado atinge o topo da torre para – depois de ter matado o homem- se unir à Heroína imaculada. Existe algo de um King Kong trash nestas sequências onde os fetiches e situações impostas do pornô (saltos agulha, felação, ejaculação facial) vêm, simbolicamente, borrar a relação de dominante/dominado. A fera é ameaçadora (entidade revolucionária?), mas quanto mais a Bela lhe dá prazer, mais a fera se enfraquece. Mais longe, um outro casal, uma outra torre: eles se bronzeiam, fodem, bebericam coquetéis. Seu imóvel se eleva enquanto sua vizinha azarada acaba por sumir no magma que sem dúvida, um dia, os absorverá também. Se envolver com a plebe, sugere o filme, expôe à queda de classe. Bem…

É plasticamente -mais que por sua sutileza- que esta obra impressiona por muito tempo. Resta depois disso dizer que Carlos Eduardo Nogueira pode ser um espertinho, que talvez tenhamos sido enganados, nada nos garante que seu próximo filme não será simplesmente idiota… A seguir…”

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