Hauteur de vue

“Zigurate nous décrit un monde de papier glacé, dont l’esthétique froide, géométrique et en même temps d’une sensualité exacerbée rappelle les icônes publicitaires des années 1980. Deux couples, dont les ébats lisses et léchés témoignent de la haute condition, forment un microcosme que vient “salir ” un monstre issu de leurs déchets. La rencontre des deux mondes sera fatale à l’un, et ne fera au bout du compte qu’élever de quelques métres la tour de Babel… ” Si l’idée de départ faisait pencher le court vers l’allégorie marxiste, le scénario est devenu plus complexe au fur et à mesure de la réalisation. “

Carlos Eduardo Nogueira, auteur brésilien de ce court diffusé en L5, préfére laisser à nos imaginations le soin d’interpréter les sens multiples que peuvent revétir ce tableau onirique et social. Mais il évoque le plaisir qu’il a pris à méler les techniques durant cette expérimentation : ” Je viens de l’animation, c’est la première fois que je travaille avec des acteurs et je compte développer ce travail mixte sur mes films à venir… “

François Doreau “

(tradução minha, agora com acentos)

Zigurate nos mostra um mundo de “Gloss Paper”, no qual a estética fria, geométrica e ao mesmo tempo de uma sensualidade exacerbada nos remete aos ícones publicitários dos anos 80. Dois casais, cujos movimentos suaves e estudados são um reflexo de sua condição social mais elevada, formam um microcosmo que acaba sendo sujado por um monstro saído de seus dejetos. O encontro desses dois mundos será fatal para um deles e acabará não fazendo nada além de elevar mais alguns metros a torre de Babel… “Se a idéia inicial fazia o curta pender em direção a uma alegoria marxista, o roteiro se tornou mais complexo à medida que ia sendo realizado. “

Carlos Eduardo Nogueira, autor brasileiro deste curta exibido na Labo 5, prefere deixar para nossa imaginação a interpretação dos múltiplos sentidos que revestem este quadro onírico e social. Mas ele evoca o prazer que teve ao misturar as técnicas durante esta experimentação: ” Eu venho da animação, é a primeira vez que trabalho com atores e espero poder desenvolver este tipo de trabalho misto em meus próximos filmes…”


Primeira crítica simpática sobre Zigurate

Quem quiser ler na fonte, aqui está: http://www.filmespolvo.com.br/site/eventos/cobertura/901

Pela segunda vez alguém comenta sobre a auto-ironia no meu trabalho, curioso.

Zigurate, de Carlos Eduardo Nogueira

Um filme absolutamente alienígena dentro de todo o atual panorama de curtas. Ao mesmo tempo em que poderia ser facilmente enquadrado dentro de uma proposta estética que remete a um cinema americano contemporâneo de grande manipulação visual, extraindo do filme qualquer índice de realidade – tendo como expoentes 300 e Sin City –, Zigurate expõe um conflito com seu próprio verniz absurdo a partir da auto-ironia que sua imagem produz. Trata-se de uma criação visual disparatada e extrema, reflexo de uma idéia de perfeição e fuga que regem determinada camada social mais elevada da sociedade, uma criação profundamente alegórica e ridicularizante, às vezes até mesmo preconceituosa, desse universo.

A imagem produz atração e repulsa, adota e assume seu próprio ridículo, cria momentos vários de comentários a partir de metáforas visuais e parece ao longo do filme se encaminhar para uma idéia de moral que se fecha mais ou menos claramente dentro desse comentário social radical. No entanto, à medida que o absurdo se acirra, o comentário moral se torna mais distante, mais intangível. Ele é agressivo, parece ofender, mas não se sabe exatamente como. Cativa justamente por ser tão estranho, tão distante de ser desvendado. Um absurdo visual, rico e podre, contradição coerente. Realmente bizarro.

*Visto na 13ª Mostra de Tiradentes

Musa Divinorum

Na quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010 (também conhecida como quinta-feira pré-Carnaval), faremos a primeira exibição do meu mais novo filme de animação, Musa Divinorum. Será no Espaço Unibanco Augusta, sala 4. Sim, aquela do outro lado da rua, que tem um espaço externo super lindo, com uma árvore e tals. Será às 21h30. O filme tem 16 minutos e é inspirado no nunca produzido longa-metragem “Hex” que eu e Ruggero escrevemos há anos.  É também o primeiro filme que faço com uma equipe de modeladores e animadores, dentro do Senac onde dou aula. Experiência interessante. Espero que possam estar presentes.

Ficha:

Musa Divinorum, cor, 16minutos, 2010

Direção e roteiro: Carlos Eduardo Nogueira

Música e efeitos sonoros: Ruggero Ruschioni

Equipe 3D: Fernando Gutierrez, Alexandre Vieira, Arthur Cavalcante, Bruna Bonadio, Helder Alves e Rafael Segóvia.

Narração: Maysa Lepique

Produção: Adriano Kakazu e Glauce Pena Santos

Available options for watching ZIGURATE

Today the best location on the internet to watch Zigurate (in a pretty decent quality) is Vimeo (click here).

Anyone who wishes to watch Zigurate has two available options on the Internet. My own dedicated server or Dailymotion. The player on my site stretches the image in fullscreen. Dailymotion adds horizontal bars and it´s great. I still plan to upload it in a even better quality. It´s not HD yet, it´s somewhere between HD and DVD. Pretty good, though. Hope you enjoy it. Viewer discretion is advised.

Next month, it will be screened in 35mm in Clermont-Ferrand. In the same session Chris Landreth is showing his new film. Hope his film brings more people!

Below, the poster I produced for the event:

Clermont-Ferrand

Zigurate foi selecionado para Clermont-Ferrand. Sempre ouvi dizer que este é o mais importante festival de curtas do mundo. Se é mesmo eu não posso afirmar, mas que é melhor que três ou quatro festivais brasileiros que recusaram o filme, lá isso é, hehe.

De 29 de Janeiro a 6 de Fevereiro. Vamos curtir de novo o frio abissal de Clermont e fazer a lição de casa de ver filme noite e dia.

Santa Maria da Feira

Zigurate selecionado para o festival Luso-Brasileiro de Santa Maria da Feira. Curioso que nem Yansan foi selecionado pra lá. Muito contente!

Zigurate | pós produção

A pós-produção foi um momento muito especial do filme. Mas me sentia como o faxineiro da grande festa que foi a filmagem. O único faxineiro.

O que mais demora e gera estresse num processo como esse é, no final das contas, o “look” do filme. É preciso chegar a um consenso do tipo de imagem que se quer. Não dá pra ficar mudando de idéia e aí reaplicar a idéia a tudo o que já foi feito anteriormente. É um processo muito desgastante e pouco a pouco ele foi saindo. É tão libertador quando finalmente você olha a imagem e diz “é isso!” (ou ainda “mais ou menos isso!”). Parece que tudo dali pra frente fica fácil. O trabalho tende a se tornar mais operacional. Os desafios continuam enormes, mas ao menos o caminho já está mais definido.

Chroma e setup básico

Aprendi muito sobre chroma nesse processo e confesso que muitos tabus do processo caíram para mim. A princípio, não era eu quem ficaria encarregado do recorte do chroma. Mas a verdade é que não tem como não ser. A regulagem do chroma em pedaços diferentes da imagem, a fim de chegar neste ou naquele efeito, não pode deixar de estar na mão do pós-produtor. Porém, quando ainda escalávamos equipe e softwares, estava decidido a trabalhar no After Effects. Era um software que eu já mexia há mais de 10 anos. Porém, o recorte de chroma bacana no After era dado por plugins, o que vem de fábrica é uma absoluta vergonha. Por essas e outras questões, acabei migrando para o até então desconhecido Fusion. O Fusion utiliza a tecnologia de “nodes”, como todos os softwares legais do mercado. Maya e XSI, o software 3D desta produção, utilizam a mesma lógica de programação para resolver materiais ultra complexos e pós. Em um dia e meio de amizade com o Fusion, abandonei o After para sempre. O recorte de chroma no Fusion, só pra ficar nesse tópico, é tão incrível e customizável! E o software é tão estupidamente rápido e estável! E olha que eles não me pagam pelos elogios!

Esta foi uma das últimas tomadas que pós-produzi. Ela foi refeita diversas vezes e num momento de completa epifania técnica resolvi um dos problemas mais chatos que a cena possuía, que era a falta de brilho nos fios de cabelo da personagem. Perceba que na imagem filmada acima, é possível perceber alguma luz vindo de trás. E isso precisava aparecer no resultado final.

Imagem já recortada. Nesse fundo preto é difícil de perceber, mas foi possível recortar à precisão os fios de cabelos, uma notória chatice de pós.

Para aplicar o brilho de recorte dos cabelos, foi necessário criar máscaras e contra-máscaras. De uma maneira geral, na pós-produção trabalhamos matematicamente o material já dado, não ficamos desenhando ou mascarando com precisão quadro a quadro. Em algumas situações isso é inevitável, mas quanto mais longe desse tipo de operação melhor!

Máscara de brilho para os cabelos e contorno da personagem

Como o trabalho no Fusion não é linear, uma ramificação do meu workflow produziu a imagem acima. Em outra ramificação, a imagem seguia através das correções de cor. Obviamente não é a aplicação de um único filtro. Em geral, a correção de cor passava por cerca de 8 nós, em cada um recebia um tipo de ajuste, se misturava com outra imagem com outro tipo de ajuste e assim por diante. De uma maneira geral, esses ajustes puderam ser convertidos em presets, para poupar tempo. O preset aqui é só um atalho, pois ainda assim eram necessários muitos ajustes. Outro aspecto que faz o Fusion andar a passos largos à frente do After Effects é a qualidade do seu removedor de ruídos. Extremamente customizável e muito, muito rápido de processar.

Imagem com sua nova cor e remoção de ruídos

Chegando neste ponto e com o fundo perfeitamente recortado, é possível adicionar o cenário (neste caso um céu com estrelas), veja abaixo. Nessa fase é possível notar mistura escura demais do cabelo com o fundo, principalmente no ombro à direita da imagem. Fica muito evidente que não existe nenhuma luz vindo de trás, o cabelo não fica incandescente, não brilha com a luz.

Fundo adicionado e alguns “highlights”

A máscara que exibi lá em cima será usada na próxima imagem. Ela é usada para filtrar um efeito de amarelamento e aumento de luminosidade nas áreas de borda e fios de cabelo. O resultado pode ser visto abaixo.

Na etapa final, diversos filtros ainda são aplicados, como um tipo de Glow para criar a impressão de brilho e estranhamento do ambiente. A imagem abaixo é a final. Em seguida, é possível ver a árvore de programação do Fusion.

Cabelos brilhando, imagem final

Tracking

O filme foi planejado para ter poucas cenas de tracking. Grosso modo, tracking é um processo que lê padrões que se repetem a cada frame, como um prego na parede, a maçaneta de uma porta, o botão de uma camisa. Se os objetos são estáticos, é possível fazer com que o software entenda o espaço 3D daquela filmagem e recrie a cãmera que foi usada para filmar, mesmo com todas as imperfeições de movimento que o cinegrafista possa ter imprimido à filmagem. Existem tracks mais simples, feitos direto na pós, que estabilizam imagens ou que simplesmente prendem algum objeto à filmagem, como por exemplo trocar na pós a imagem de uma quadro na parede ou de uma placa.

Na realidade, cenas com trackings complexos podem dar mais credibilidade (realidade) para cena. Isso não me importava, Zigurate foi planejado para ter tomadas bastante rigorosas e formais, planejadas para comunicar a cena. Onde foi necessário e importante, fizemos. Abaixo descrevo dois tipo de tracking utilizados.

Num dos momentos do filme a câmera começa mostrando o personagem quase lateralmente, passa por sua frente e termina no enquadramento acima. A tomada era necessária para inverter com alguma elegância o eixo do plano. A filmagem foi feita com um carrinho sobre trilhos. Os trilhos tinha o formato de uma meia lua, com cerca de 3 metros de raio, acredito. Talvez menos.

O grande problema de não saber exatamente o que esperar da leitura do chroma na pós é tomar decisões erradas no set. Esta cena esbarrou fortemente nessa questão. Fiz o possível para manter o fundo mais ou menos limpo de sujeiras, pois acreditava que o chroma ficaria impossível. Porém, sem referência de fundo, fica impossível de gerar a paralaxe necessária para o tracking 3D. No nosso caso, tentamos prezar o chroma. Foi um erro que poderia ter custado caro. Devíamos ter priorizado o track. Tínhamos marcações no fundo azul que eram quase do mesmo azul. O Boujou (software de tracking) não via diferença e não trackeava. Assim, pela graça divina, a câmera filmou uns pedacinhos do grid, onde ficam as lâmpadas e tomadas no teto. Foram os pontos de leitura mais importantes, assim como o lugar onde o Carlos se apóia.

No fim das contas a coisa saiu, mas foram muitos testes e cerca de dois dias de trabalho intenso. Faz e refaz à exaustão. E só tínhamos essa opção de plano.

O interessante é perceber o software entendendo o que é a cena. Ele não tem a menor idéia do que é o material filmado. Se você está filmando de cima, de baixo, se aproximando ou afastando. É gratificante ver o trabalho desses engenheiros loucos conforme você vai explicando ao programa o que ele está examinando. No final, o Boujou precisaria entender que estávamos filmando sobre um trilho em formato de meia lua e não apenas isso. Sobre o trilho a câmera também girava sobre seu próprio eixo, apontava mais pra cima e mais pra baixo. E eis abaixo o impressionante resultado que ele produziu.

O resultado então é transportado pro XSI, o pacote de 3D da produção. Lá o cenário é renderizado utilizando uma câmera virtual criada pelo Boujou, que se mexe de maneira idêntica àquela que utilizamos no estúdio, meses antes. Num momento posterior, filmagem e cenário se encontram no Fusion.

Havia um outro tipo de tracking que poderia ser resolvido de maneira extremamente mais prática do que através do Boujou. Um dos primeiros planos do filme e que se repete outras duas vezes exibe as pernas da Thais caminhando da direita para a esquerda do quadro, até que ela chega na espreguiçadeira. Essa caminhada foi montada sobre uma série de praticáveis, que possuíam detalhamento suficiente (sujeira, manchas, parafusos) para um track em 2D. A câmera acompanhava lateralmente sobre trilhos.

Passarela de praticáveis
Passarela de praticáveis

Se não fossem suficientes os pontos de track dos praticáveis, na parte de trás haviam pirulitos coloridos para garantir leitura. Eu poderia optar. Porém, trackear um pedaço de primeiro plano e um pedaço de plano de fundo acabaria dando leituras de velocidade errada, devido à paralaxe. Ou seja, na filmagem percebemos o primeiro plano como sendo muito mais veloz que o plano de fundo.

Optei por extrair informação somente do primeiro plano, trackeando no Fusion. O tracker 2D do Fusion é muito legal e simples de operar e é esperto o suficiente para trackear algo manualmente até quase sair da cena e depois recomeçar a partir de um ponto que esteja entrando em quadro. Até o próprio pé fixo da Thais serviu como ponto de track. Uma vez trackeado, eu tinha a informação da velocidade da câmera, mas somente em relação ao primeiríssimo plano da filmagem. Um novo problema se impunha: trackeando em 2d não haveria paralaxe: como fazer o segundo plano andar mais rápido do que o primeiro? Isso foi resolvido utilizando as capacidades de 3D do fusion. Imagens estáticas do guarda-corpoe do fundo (céu) foram dispostas no espaço, em distâncias que pudessem gerar a paralaxe necessária, ou seja a diferença de velocidade em função da distância.

A informação do track da imagem filmada foi passada para essas peças, que se movimentavam em conjunto. Então uma câmera 3D registrava a saída final. Na imagem abaixo, vemos à esquerda a câmera filmando uma imagem 2D do guarda-corpo de primeiro plano. Depois vemos as pernas da Thais. Mais atrás um segundo guarda-corpo e bem mais atrás do fundo do céu. Com a informação de movimento adquirida, todo o cenário (guarda-corpos e céu) se deslocavam da esquerda para a direita, enquanto as pernas da Thais permaneciam fixas. Com a câmera parada, a ilusão que temos é justamente o contrário, que o cenário está fixo e é a câmera e a atriz que se movem.

Track 2D e animação do espaço 3D

É isso aí

Janela Internacional de Cinema do Recife

Zigurate será exibido na “Janela Internacional de Cinema do Recife“, segunda quinzena de outubro.

La Boca del Lobo

Agora é oficial. Zigurate em sua primeira exibição internacional. Festival Internacional “La Boca del Lobo” que rola em Madrid, de 21 a 31 de outubro.

Zigurate | pré produção

Um pouco da história desse filme, antes que eu me esqueça dela.

Zigurate é meu primeiro filme realizado com atores.

A idéia do projeto apareceu no final de 2006. Na virada do ano de 2007, fui representar meu filme Yansan no Festival de Curtas de Clermon-Ferrand. Como um amigo já havia dito, Clermont-Ferrand é um evento “brain-fucker” e a própria idéia de realizar Zigurate se tornava mais palpável frente a todas as esquisitices e eventuais propostas extremas que pude conferir por lá. Não achei que pudesse ganhar um edital com ele. Roteiro muito forte, extremo, talvez. Recebi a notícia do prêmio estímulo durante a mixagem de “Cânone para 3 Mulheres”, já em meados de novembro de 2007.

Filme maldito por excelência, prenunciava sua nuvem negra já na própria produção. Diversos amigos e colaboradores tombaram pelo caminho (alguns para sempre), muito trabalho combinado e pago teve de ser refeito por conta de abandonos (refeito por mim, claro). Para mim foi difícil tocar esse filme e acreditar nele por todo o caminho enquanto todos os problemas do mundo apareciam ao seu redor. Lembro de quando uma das empresas de agenciamento de atores nos telefonou. Eles estavam indignados com o roteiro e disseram que nenhum de seus agenciados trabalharia nesse filme (!!). Lembro perfeitamente da diretora de produção, a Ju Spinola preparando o terreno pra me contar. Com tantas incerteza na cabeça, essa foi uma notícia muito ruim de receber, começam a entrar os questionamentos se valia a pena, se eu não havia, sei lá, exagerado.

Primeiro corte do filme foi feito sobre as imagens do storyboard. Organização é tudo!

Apesar de ter recebido diversas sugestões de atrizes e atores, alguns santos pareciam ter batido antes de qualquer encontro. Impliquei com uma garota chamada Thais Simi. Gostei das fotos, mas não sabia nada dela. E ela era da tal agência. Felizmente soubemos que ela estava no novo filme do Mojica e amigos na produção abundavam. Na direção tinha o Denison Ramalho, tinha o Paulo Sacramento. Tinha o Kapel que já havia trabalhado com ela, também. Conseguimos chegar nela e em tantos outros.

Marcamos um dia inteiro de testes. Diversas pessoas talentosas passaram por lá.

O teste do casting era cretino, mas era o que precisávamos. Vários saíram de lá xingando nosso teste.

Homem, sempre de sunga: vem andando até aquela murada, de maneira imponente e ao mesmo tempo relaxada. Chega e se apóia. Lá na frente, nuvens infinitas. Contemple como seu tudo aquilo fosse seu. Algo lá na sua longínqua direita te prende a atenção. Então vira de volta, olha sua mulher tomando banho de sol, e se insinua pra ela. Era isso.

Mulher, de biquini e salto: Desce a escada (que era um banco), caminha até a espreguiçadeira. Se deita pra tomar sol. Algo te incomoda, uma sombra sobre seus olhos. Levanta, puxa a espreguiçadeira pra fora da sombra. Volta a deitar.

Hahahahaha!

O primeiríssimo ator a aparecer, Carlos Dias. Antes do teste já comentou do cachê baixo, se dava pra melhorar (curta é foda!). Mas soubemos de cara que ele era o sujeito pro papel. Ninguém mais chegou perto, foi perfeito!

Carlos Dias olhando para o universo de nuvens à sua frente

A primeira mulher desse dia foi a Renata Brás, uma mulher linda e de corpo escultural. Mas não era quem eu procurava para o papel principal do filme, infelizmente. Thais Simi foi uma das últimas pessoas a chegar naquele dia. Fizemos um teste de casting ligeiramente mais longo, testamos mais tomadas da maneira que era possível.

Thais Simi olha o monstro gigante à sua frente

Afinal era o casting de um filme de interpretação extremamente fria, sem texto e em chroma-key! Achei a Thais perfeita para o papel. Fiz questão de pormenorizar os percalços dessa produção e ela topou! Apesar de ter sido uma das atrizes do filme novo do Zé do Caixão, em Zigurate passaríamos a linha com os dois pés. É, ela topou.

O último cara a aparecer por lá foi o Ricardo Dantas. O Ricardo já era meu amigo e se interessou pelo filme antes de termos ganho o patrocínio do governo. Ele de pronto chegou com a vontade de ser o segundo ator e deu sugestões importantes para compor esse segundo personagem. Esse papel cresceu de importância no roteiro, ficou mais coeso. Sua mulher seria a Renata Brás, grande desperdício deixá-la de fora.

Renata e Ricardo, já no set de filmagens
Renata e Ricardo, já no set de filmagens

Fiquei muito feliz com as escolhas.

Meu assistente foi o Adriano Kakazu, amigo da época da ECA. A fotografia ficou a cargo do Paulo Disca, outro amigo.

Disca, Thaizinha (preparadora de elenco), Kakazu e eu
Luciana (continuísta) Paulo Disca, Thaizinha (preparadora de elenco), Kakazu e eu

Foi muito legal chegar no set naquela quinta-feira, 27 de março de 2008 (a manhã seguinte a um maravilhoso jantar no DOM, por ocasião do aniversário da Michelle). 7 da manhã, o set fervilhando de pessoas trabalhando. Que sensação incrível! Tudo isso pro meu filme? Inesquecível!

Alê, nosso incrível contra-regras, pintando pirulitos às 7h da  manhã
Alê, nosso incrível contra-regras, pintando pirulitos às 7h da manhã

Foram quatro dias de 12 horas de trabalho cada. Kakazu havia definido um plano de filmagem bastante organizado. Primeiro dia foi difícil, gravamos menos do que deveríamos. Comecei a apressar o trabalho já no segundo dia, alguns planos foram gravdos com uma única opção. Ficou claro pra mim uma das máximas da pós-produção: o trabalho de pós, em geral, é bastante menos custoso do que aquele do set. Uma frase minha, normalmente dita com um certo pesar, virou hit: “deixa que eu resolvo na pós”. Então continuamos.

O terceiro e quarto dia foram dedicados às complicadas e nojentas cenas que envolviam variadas melecas. Eu pessoalmente sofri bastante nos dois últimos dias, mas o que dizer da Thais? Ela aguentou tudo com um sorriso no rosto o tempo todo. Nosso quarto dia foi marcado pela mudança de horário. Ao contrário do turno 7h-19h, faríamos o turno 14h-2h. Isso porque nosso banheiro cênico só pôde ser montado do lado de fora do estúdio de chroma, numa garagem de zetaflex transparente, que não barrava o sol. A grana pro filme estava muito contadinha, a pós fez algumas economias. Só compramos um tapete vermelho, o outro foi inserido digitalmente. Entre tantas outras trucagens.

Mona e eu sobre o banheiro cênico.
Mona e eu sobre o banheiro cênico.

A caixa d’água abastecia o chuveiro com água fria. Thais teve que tomar banho no exterior, na madrugada e com água quase fria, conseguimos melhorar a temperatura da água com aqueles aquecedores portáteis, basicamente um fio e uma resistência. Mas eram milhares de litros! Rolou, felizmente.

Mona e Thais, a última refeição no estúdio, já na madrugada da  segunda-feira.
Mona e Thais, a última refeição no estúdio, já na madrugada da segunda-feira.

A pós-produção desse material levou cerca de um ano. E falo de um ano integral mesmo, trabalhando praticamente todos os dias, às vezes mais de oito horas. O filme foi feito quase inteiramente na 44 Toons, pois eu estava meio “homeless” na época. Achamos um canto pro computador e começamos. Foi um período muito legal, trabalhando num lugar de astral muito alto, com toda a rede de restaurantes da Vila Madalena à disposição diariamente. Parece que todos os dias foram de sol, curiosa lembrança.

Uma questão de cunho técnico, que já não interessa a todos, mas que foi de crucial importância para o sucesso e o cumprimento de prazos deste filme foi a escolha do Fusion ao invés do After Effects como software de pós-produção. Inacreditável. 10 anos de apego a um software foram embora em um dia e meio.

Enfim, apesar de comentários positivos inflamados de pessoas que importam muito, sei que o filme vai sofrer horrores com seleções. Mas isso a gente já sabia de antemão.

Mais fotos: Set Zigurate do Flickr